Ensino e pesquisa no Brasil são sim o resultado da nossa cultura.

Quando um auditor precisa realizar seu trabalho, chega de surpresa. Assim ninguém tem tempo de “maquiar” os problemas. Estive na Universidade Federal do Paraná nesta manhã. Não fui com a intenção de avaliar nada, apenas visitei o Centro Politécnico para assistir uma palestra sobre: “O uso de geotecnologias no estudo de aquíferos”, promovida pelo grupo PET Geologia, a Pós-graduação em Geologia e o grupo SEG Geofísica, por mera curiosidade sobre o tema.

Cheguei com uma hora de antecedência porque calculei mal o tempo de deslocamento. Então, aproveitei para caminhar pelo campus que há muito tempo eu não visitava. E para mim esta atmosfera de pesquisa continua inspiradora, ainda mais em um local com “cara” de universidade. O esteriótipo tipico de alunos indo de um lado para o outro, laboratórios, biblioteca e os editais com anúncios de eventos acadêmicos e casas para compartilhar. 

Não vi nenhum aluno nú e hoje não estava frio em Curitiba. Os únicos rabiscos eram um uma casinha próxima a saída e compreendi se tratar do Centro Acadêmico. Mas não eram pichações. Estava mais para o que costumam chamar de Arte Urbana. Mas o que vi foram alunos se movimentando pela pesquisa. Logo que passei pelo primeiro bloco um evento me chamou atenção: “Semana de atualização em Engenharia Elétrica UFPR”. Dois alunos brasileiros, falando em um inglês pouco experiente, apresentavam para um terceirou o projeto que estão desenvolvendo. Provavelmente um aluno de intercâmbio em nossa universidade.

Da esquerda para direita: Thomas Gusso, Alberto Woidaleski e Victória Schiefler.

Não muito longe dali (mas também não tão perto, porque lá nada é muito perto), parei para pegar uma água quando vi quatro estudantes ao lado de um avião em miniatura. “Tudo bem!” – pensei – “Estamos em uma universidade, o estranho pode ser o futuro”. Nada mais era do que alunos vendendo rifa para participar de um campeonato nacional, o SAE Brasil Aerodesign, em São José dos Campos. Provavelmente o mais importante evento da categoria no país.

Enquanto a Embraer resolve suas questões no mundo financeiro, jovens da equipe Burning Goose Aerodesing UFPR, dos cursos de Engenharia Mecânica, Engenharia Elétrica e Engenharia de Produção, estão preocupados em levar o projeto para que seja avaliado por especialistas da empresa e do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA. Uma referência para o futuro. #vaiplaneta!

“EMBRAER é hoje para muitos membros da equipe uma perspectiva de futuro no ramo da Engenharia Aeronáutica, além disso é um símbolo muito grande de inovação nacional. Hoje temos ex-membros da equipe que trabalham lá, e sem dúvida são um exemplo de como o que começou com uma “brincadeira” entre amigos, pode sim se tornar uma carreira”. (Victória e equipe).

Como não acreditar nestas futuras gerações de cientistas e profissionais? Eles não ficam de braços cruzados esperando que o Estado cumpra com seu papel. Também não estão por aí fazendo balburdia. Trabalham duro para desenvolver um projeto completo, do planejamento à engenharia final, passando pela gestão de equipe e relações públicas. Este é o perfil profissional que o mercado procura.

“A Burning Goose é uma equipe de competição, ou seja, nosso ano é inteiramente planejado e pautado com base em datas e prazos que a SAE Brasil AeroDesign nos fornece. Ir para esse evento nada mais é do que a concretização de todo o trabalho de uma equipe formada por mais de 40 pessoas, que dedicaram boa parte do seu ano ao planejamento e execução desse projeto. Além disso a troca de conhecimento envolvida em todo o período da competição é algo imensurável, são 60 equipes, todas com o mesmo regulamento de base e com visões tão diferentes de otimização, gestão e conceitos e principalmente todas completamente dispostas a discutir seu projeto e difundir todo o conhecimento adquirido”. (Victória e equipe).

Com o adiantado da hora, corri para minha palestra. Um jovem mestrando, de dreads, iniciou a apresentação para uma sala cheia de outros jovens, que instantes antes de começar a apresentação discutiam quem foi o ultimo a sair da palestra sobre “História, Soberania e Desenvolvimento Sustentável”, na noite anterior. Alguns com as botas sujas de terra. Mas não podemos esquecer, a apresentação foi promovida pelo curso de Geologia. Ficou claro que não era uma transgressão ou desrespeito com a educação.

Cássio Pires – o Argila – em “O uso de geotecnologias no estudo de aquíferos”

O jovem geólogo Cássio Pires (conhecido também como Argila), apresentou parte da pesquisa que esta desenvolvendo junto ao programa de Pós-Graduação em Geologia (UFPR). Enfatizou as parcerias com o mestrando Lucas Tesser, da USP, em um projeto de pesquisa sobre o nordeste, e com o professor pesquisador Dr. Alan Miranda, da UFRRJ, sobre os aquíferos do Estado do Rio de Janeiro. São profissionais de diferentes áreas que trocam informações e metodologias com a finalidade de enriquecer o conhecimento e entregar um resultado que realmente tenha valor prático, positivo na vida das pessoas, como conta Cássio, entusiasmado:

“O nordeste tem uma sensibilidade climática muito forte, com muitas áreas com escassez de chuvas. Eu tive acesso recentemente aos dados de poços de uma região muito árida, no estado de Alagoas. E eu pretendo pegar tudo isto que eu estou fazendo no meu mestrado [no Paraná] e aplicar na área. Onde o Estado sabe que tem água. (…) Feito esta frente, uma outra frente vai ter que pegar esta discussão e ver como a gente insere dentro da discussão de gestão. Que é fundamental. O problema de vários lugares no planeta, de não ter acesso a água, é gestão”.

A primeira imagem da apresentação foi um impactante comparativo do antes e depois das chuvas que causaram desmoronamentos, em 2011, da região serrana do Rio de Janeiro. O estudo inicial apresenta dados sobre como identificar aquíferos a partir do trajeto formado pela água em rochas que a absorvem e a retem. Outro ponto da pesquisa trata da recuperação de áreas degradadas com o auxílio da agricultura sintrópica, unindo geologia com agrofloresta.

Além da troca com outros pesquisadores, Cássio pretende que sua pesquisa contribua ativamente em planejamentos ambientais de organizações responsáveis pela gestão. Alguns podem pensar que é um propósito um tanto pretensioso ou idealista para um estudante. Mas lembrando que ele é um pesquisador. Com ou sem bolsa de pesquisa, está integrado com o meio acadêmico e é um representante desta geração no desenvolvimento da Geologia Ambiental. E afinal, é para isto que serve a Universidade, para revelar pontos de vista revolucionários, não é mesmo?

“Dentro do meu projeto de pesquisa, eu pego um recorte pequeno para tentar discutir e mostrar para algumas pessoas que é possível a gente entender o que é que tem de baixo do chão, para que outras pessoas, em outras frentes, consigam pensar em ações políticas. Para que utilize isto de alguma maneira” (Cassio Pires)

Apesar de não ter sido este o propósito da visita à UFPR hoje, não pude deixar de contar o que vi. O que faz sentido para estes jovens é a vontade de fazer descobertas ou desenvolver equipamentos que serão lembrados por melhorar a qualidade de vida de pessoas, independente da nacionalidade, origem social ou posicionamento político. É só ciência. Na maioria das vezes a pesquisa científica não surge no laboratório. Nasce na brincadeira ou na tragédia do cotidiano. Esta espontaneidade e criatividade para testar hipóteses é que fazem do Brasil o 13º país com maior número de publicações científicas no mundo entre 2011 – 2016, segundo dados da Clarivate Analytics. Sendo que 95% delas vieram de universidades públicas. Imagina o que não fariam com o adequado incentivo.

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