Imagem: Gipiragis

No clima da nova onda virtual temos vários guias práticos de como ganhar dinheiro, como ser mais isso, mais aquilo. Informações na maioria das vezes tão superficiais quanto a responsabilidade de quem as produz. Isto leva a reflexão sobre outro debate muito atual, a preservação do meio ambiente e o modo que, pelo senso comum, pensamos ser educação ambiental. Para alguns é apenas um guia destes que mostram como fazer as coisas, de forma passiva, sem nenhuma reflexão. Apenas repetindo receitas como se isso garantisse a efetividade dos resultados.

Ser ambientalmente educado depende de saber fazer escolhas. O tal do consumo consciente. Do saber de onde vem e onde termina. Compreender que as coisas não se materializam na prateleira do supermercado e terminam quando misteriosamente desaparecem da lixeira da rua. Assim como a água, que com a seca tem feito muitos entenderem que sua falta não é apenas cenário para obras como Morte e Vida Severina ou Terra em Transe (como metáfora). E que um país rico em água doce pode sim viver secas dignas de desertos. O mesmo acontece com o cultivo agrícola ou pecuário. O alimento que mata a fome dos que podem pagar por ele e vai em toneladas para os aterros muitas vezes tem origem de regiões que tiraram o sustento de comunidades tradicionais, o habitat animais e a existência de plantas.

E assim levamos o problema “meio ambiente” para o nível social e econômico. O chamado desenvolvimento sustentável quando ignora qualquer uma das etapas relacionadas a produção deixa de ser desenvolvimento sustentável. Sempre vai existir a alegação de que não há como produzir, por exemplo, estruturas de aço para ter um menor impacto ambiental na construção civil sem antes existir o trabalho de mineradoras. E considerar que elas geram empregos e desenvolvimento para cidades. É verdade! Usamos o aço em vários setores, da saúde à indústria, e ele simboliza mesmo o desenvolvimento.

No entanto, só será sustentável se não ficar restrito a produção e entrega deste insumo. Se considerar que a exploração mineral não pode se sobrepor ao desenvolvimento que já existe na região e a todo o valor cultural que lá vive. Muito menos deve deixar de investir em pesquisas e tecnologias capazes de zerar os resíduos que produz ou deixar à manutenção periódica (nem sempre eficiente) das barragens que transformam em definitivo a paisagem. Definitivo, mas talvez não irreversível quanto ao impacto ambiental. Não, nunca mais a paisagem será a mesma de antes. Assim como muitas outras coisas, se transformam. Mas sempre é possível resignificar em favor do meio ambiente o que é bem diferente de abandonar a sorte do tempo.

São inúmeros exemplos, basta olhar a sua volta e se perguntar “de onde vem isto? Para onde vai? Como termina? Quantas pessoas estão envolvidas direta e indiretamente neste caminho?”. Quem conseguiria pensar sobre isto para tudo o que vê? Mas a quantidade diminui muito quando você reflete sobre estas questões a partir do que você escolhe para sua vida. E na verdade é só sobre isto. Porque quando você der conta de suas escolhas, o seu vizinho fizer o mesmo sobre as escolhas dele, ou a tia fofoqueira que gosta de cuidar da vida dos outros responder as dela, aí o peso de cuidar do que é um bem comum da humanidade ficará muito mais leve.

É muito mais cômodo esperar que um guia te mostre mastigadinho e ruminado o que você precisa fazer com a água, com o lixo, com a energia, com as árvores que sujam o quintal da sua casa, com o resíduo do seu escritório. Mas não. Nem mesmo no mundo perfeito. Se você descobrir que é do tipo que espera por isto, mesmo achando que é uma pessoa ambientalmente educada, lamento muito por sua preguiça. Seu comodismo não irá te eximir de sua responsabilidade.

Em breve vou deixar alguns exemplos de como pessoas comuns como eu e você tem pensado nas questões que envolvem suas escolhas. Fique tranquilo, ninguém no mundo consegue responder as todas elas, até porque algumas dependem das respostas de outras pessoas, como uma teia de informações. Ou ainda, algumas escolhas estão muito assimiladas por nossos hábitos ou culturas que fica mesmo muito mais difícil. Mas o que importa é o quanto você está disposto a refletir sobre suas escolhas e tornar-se consciente delas.

Como sugestão de leitura, gostaria de indicar o livro Educação Ambiental: princípios e práticas, de Genebaldo Freire Dias. Todos os livros deste autor são boas indicações, mas para quem precisa compreender melhor o assunto, o conceito, se aprofundar sobre a história dos debates relativos ao meio ambiente, encontrar propostas de atividades, esta é uma excelente opção. Não se preocupe, não é um guia ou um manual com receitas prontas. É conteúdo, informação com algumas sugestões de atividades para ajudar a a formar o senso crítico.